A
monocultura, a Aracruz Celulose e os quilombolas do
Espírito Santo
Hilaine Yaccoub*
A
presença da cultura negra no Espírito Santo é
bastante expressiva, com
registro no censo de 1991 de 1,6 milhões de negros, totalizando
65% da
população estadual. Dispersos hoje por todo
território, a maior
concentração ainda está no norte do
Espírito Santo. Os municípios de
Conceição da Barra e São Mateus coincidem com um
dos índices de maior
concentração da monocultura de eucalipto no estado,
exatamente onde se
encontram as comunidades negras rurais. As entidades de Movimento Negro
de Conceição da Barra e São Mateus cadastraram 35
comunidades negras
rurais ainda resistentes – são cerca de 1.300 famílias
remanescentes.
É
com as 1.300 famílias que insistiram em permanecer na terra que
começa
o longo trabalho de reconstrução cultural,
econômica e territorial
dessas populações. Reagrupar os remanescentes de
quilombos dispersos em
meio ao eucaliptal, realimentar esta cultura, construir coletivamente o
debate político e a estratégia de exigibilidade de
direitos, formar
lideranças, desenvolver uma assistência técnica
agrícola
contextualizada, capaz de pensar a reconversão das áreas
de
monocultura, na especificidade da tradição territorial
quilombola.
As
comunidades negras rurais e remanescentes de quilombos do Norte do
Espírito Santo, região denominada Sapê do Norte,
que compreende os
municípios de Conceição da Barra e São
Mateus, vêm sofrendo com o
impacto causado pela monocultura do eucalipto desde que, há
cerca de 40
anos, a Aracruz Celulose se estabeleceu na região.
Antes da chegada da empresa, havia 2 mil comunidades, com
10 mil famílias. Hoje restaram 35 comunidades, com cerca de
1.300 famílias.
A chegada da Aracruz
ao Espírito Santo, em 1967, respondia à nova
política econômica do
estado, que visava romper a dependência da economia capixaba em
relação
à monocultura do café e promover incentivos fiscais para
a implantação
de grandes indústrias. A companhia logo empreendeu a compra de
terras,
começando pelo município de Aracruz e
depois abrangendo os municípios de Conceição da
Barra e São Mateus.
Em relatório
preliminar de uma pesquisa participativa quantitativa realizada em 2002
pela ONG Koinonia - Presença Econômica e Serviço1,
849 domicílios foram visitados nos municípios de
Conceição da Barra e
São Mateus, o que permitiu coletar informações
sobre trabalho, geração
de renda, saúde, escolaridade etc. Ao todo, 3.627 pessoas foram
entrevistadas e responderam o questionário elaborado com a
finalidade
de traçar uma espécie de perfil
sócio-econômico das famílias
quilombolas residentes nessa região. Através dos dados
obtidos, pudemos
observar o quanto a implantação da
monocultura do eucalipto e a instalação da Aracruz
Celulose S.A. modificou e afeta a vida dessa população.
Indígenas
e quilombolas do norte do estado venderam suas terras diante da
promessa da empresa de oferecer trabalho e renda para todos, sem saber
que isso não seria possível, já que a
indústria é altamente mecanizada
e necessitava, portanto, de mão-de-obra qualificada, o que
praticamente
inexiste nessa região onde a escolaridade da
população é baixa. O
despojo de seus territórios tradicionais também
inviabilizou a
agricultura de subsistência e a criação de animais.
Os poucos que
resistiram permaneceram ilhados pelos eucaliptos da empresa e hoje
sobrevivem do plantio de mandioca para fazer farinha e da cana para
produzir melado. Utilizam os restos de madeira do eucalipto para
produzir carvão vegetal, além de outras pequenas
produções, como frutas
e verduras produzidos no próprio quintal de casa, onde resta o
mínimo
de terra produtiva que puderam conservar. Restaram-lhes, então,
os
ofícios mais degr adantes, como carregar tonéis de
herbicidas e
agrotóxicos para serem aplicados nos cultivos de eucalipto, de
modo a
facilitar a colheita – já que essas substâncias extinguem
qualquer
outra forma de vida que não o eucalipto. Em média,
são jogados cerca de
250 mil litros de herbicidas por dia nas plantações de
eucalipto.
Um dos venenos
utilizados é o Tordon2 que,
além se ilegal, por ser comprovadamente cancerígeno e
causador de
doenças genéticas, não é indicado para esse
tipo de cultura. Mesmo
assim, a substância é utilizada em todos os
municípios onde o eucalipto
é plantado, sob o aval do Instituto de Defesa
Agropecuária e Florestal
( Idaf) e da Secretaria de Estado para Assuntos do Meio
Ambiente (Seama/Iema),
que não toma qualquer providência mediante
denúncias feitas, inclusive,
por meios de comunicação que atuam na área, como a
revista eletrônica
Século Diário, onde diariamente são divulgados
depoimentos dos
quilombolas da região, além de notícias referentes
às questões
ambientais da região do Sapê do Norte .
A seguir, encontramos
um quadro3 com
os dados referentes aos sintomas causados pelo veneno.
Nº de familiares
que apresentam sintomas de contaminação – por município
|
Nº
de familiares que apresentam sintomas de contaminação -
por município
|
|
Número
de familiares
|
CB
|
SM
|
|
Uma pessoa
|
57,9
|
65,4
|
|
Duas
pessoas
|
27,0
|
25,2
|
|
Três
pessoas
|
9,5
|
6,6
|
|
Quatro
pessoas
|
3,2
|
2,0
|
|
Cinco
pessoas
|
0,0
|
0,3
|
|
Seis
pessoas
|
1,6
|
0,0
|
|
Sete
pessoas
|
0,0
|
0,3
|
|
Dez
pessoas
|
0,8
|
0,0
|
|
Total
|
100
|
100
|
|
Total
válido
|
126
|
301
|
Fonte: Pesquisa
Comunidades Sapê do Norte (Koinonia)
Essa
prática, além de representar riscos à saúde
e à própria vida dos
trabalhadores, é responsável pela
contaminação da água dos rios,
causando também a morte por envenenamento de porcos, galinhas e
outros
animais domésticos. O problema se tornou tão grave que
não há mais um
córrego que não esteja contaminado nos municípios
de Conceição da Barra
e de São Mateus.
Outro
indício da devastação e do desequilíbrio
ambiental causados pelo
plantio de eucalipto é o assoreamento dos rios, hoje
praticamente
secos, uma vez que a espécie consome muita água. A falta d'água
não aflige só os animais,
como também impede a produção de qualquer tipo de
alimento. O amendoim
cresce raquítico, o feijão não se desenvolve, o
milho não nasce,
deixando claro que a improdutividade da terra generalizou-se.
Os
quilombolas, portanto, não têm perspectiva de trabalho e
nem de
qualquer forma de rendimento ou sustento. Muitos migraram para os
grandes centros, contribuindo para o agravamento do processo de favelização
das cidades. Os moradores que ficam, sem encontrar saída para
sobreviver vão até o lixo da Aracruz
Celulose recolher as sobras de madeira que não têm nenhuma
serventia
para a empresa (a ponta das árvores), para fazer carvão
vegetal.
Algumas comunidades têm seus próprios fornos, outras pagam
uma espécie
de aluguel. Além disso, há crianças, mulheres e
jovens trabalhando sem
qualquer tipo de proteção.
Como
se não bastasse a degradação dos solos e rios, o
que alegam estudiosos
e os próprios quilombolas, principalmente os mais antigos, que
acompanharam durante décadas todo o processo de mudanças
sofridas na
região, é que a culpa recai sobre a
instalação da Aracruz
Celulose, que levou à devastação de milhares de
alqueires de Mata
Atlântica. Com base em denúncias feitas por diversos
grupos de
ambientalistas, pesquisadores e do movimento rural, indígena e
quilombola, foi aprovada a Lei nº 252/01, do Espírito
Santo, que proíbe
por tempo indeterminado o plantio de eucalipto em novas áreas
até que
seja feito um zoneamento agroecológico em todo o
estado.
Em função
disso, a Aracruz
desenvolveu novas estratégias para prosseguir com sua
expansão, entre
elas a implantação do Programa Produtor Florestal, em
1990, que
consiste no arrendamento de terras de pequenos agricultores para que
estes introduzam o eucalipto em suas propriedades.
Neste Programa, o
pequeno produtor recebe da Aracruz
as mudas e tem a compra da madeira assegurada a um preço muito
menor
(25 vezes menor) que o de mercado. Dessa forma, a empresa, que confirma
ter eucaliptos plantados em 71 mil hectares por meio do Programa, se
exime de responsabilidades pela agressão ao meio ambiente, que
recaem
sobre o pequeno produtor.
Mais de 3
mil agricultores de 131 municípios de Espírito Santo,
Bahia, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul já foram incorporados ao Programa, e
já está
havendo expansão para o Rio de Janeiro. Resta saber se esses
produtores
estão cientes de que além da rentabilidade do eucalipto
ser 25 vezes
menor do que a do cultivo de cereais e hortaliças, ao final do
contrato
eles terão sua terra degradada e completamente inviabilizada
para o
plantio de gêneros alimentícios.
Por sua vez, a Aracruz
nega as acusações e sustenta a versão de que sua
atividade contribui para a preservação ambiental e a sustentabilidade
das regiões onde cultiva eucalipto. Em sua página na internet,
a companhia divulga informações, dados e clipping
de notícias sobre seu alto desempenho, que lhe rendeu diversos
prêmios,
assim como também exibe atividades direcionadas para as
comunidades
locais. O que se sabe é que as denúncias nunca aparecem
na grande mídia
e a empresa é sempre citada como um caso de sucesso.
Porém geógrafos,
antropólogos, ambientalistas e pesquisadores, de um modo geral,
atuam
contrariando essa lógica. Lutam por melhorias em nome dessa
população
que se organiza cada vez mais e se empodera de seus
direitos com uma única finalidade: permanecer na terra que lhes
pertence e tirar seu sustento.
"Vendemo
nossa terrinha
Pra vim mora na cidade,
Trabalhá
no eucalipto,
E passá
necessidade.
Chegou um homem vistoso,
Com dinheiro e com razão,
Disse s e nóis
não vendesse nossa terra,
O Brasil não ia pra frente
não.
Nóis vendemo
nossa terra,
E vendia muito mais,
O Brasil só dá pra frente,
E nóis só
dá pra trás."
– Zoroasto
Valeriano Rodrigues (quilombola de uma das comunidades de São Mateus/Norte
do ES)
* Hilaine
Yaccoub é
aluna do Programa de Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas
Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do
IBGE e
colaboradora do Programa Egbé - Territórios
Negros, da ONG Koinonia - Presença Ecumênica
e Serviço.
1 A pesquisa foi
coordenada pelo antropólogo José Maurício Arruti,
coordenador do Programa Egbé - Territórios
Negros na ONG Koinonia - Presença Ecumência
e Serviço, a quem agradeço pelo compartilhamento dos
dados.
2 O Tordon
2,4D foi o agente-laranja, usado pelos Estados Unidos na guerra
química
contra o Vietnã. Na ocasião, foram despejados 35
milhões de litros do
produto, cujos efeitos até hoje são sentidos pelos
vietnamitas, que
relacionam mutações genéticas na
formação dos bebês ao contato com a
substância. Pesquisadores vietnamitas afirmam que a
relação das vítimas
é de uma para cada mil habitantes.
3
Dados obtidos no "Relatório de Pesquisa Participativa
Quantitativa
Quilombos do Sapê do Norte: as Comunidades Negras Rurais dos
Municípios
de Conceição da Barra e São Mateus (ES)", Programa
Egbé - Territórios Negros, da
ONG Koinonia - Presença Ecumênica e
Serviço. Rio de Janeiro, agosto de 2005.
Fonte: Rits, http://www.rits.org.br/ em 10/10/2005
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