Histórico

O Grupo Motim
surgiu em1994. Era um
grupo nascido do movimento anarquista; jovens da periferia da Grande
Vitória-ES (Principalmente Cariacica) que se reuniam para, de
forma organizada, difundir as
idéias
anarquista, protestos contra o Estado, apoiando entidades e movimentos
sociais (MST, Movimento Negro, de Mulheres, entre outros
movimentos de caráter de luta emancipatória). A forma de
protesto
sempre foi pacífica, através de passeatas, panfletagens,
“chous” de
música, de dança, performances, poesias, zines,
ocupações de prédios
públicos.
Ricardo Amaro (autor, diretor e ator de teatro), foi convidado por Paulo Henrique (Lingüiça) para entrar no grupo. Começou-se então a trabalhar o teatro na perspectiva de um instrumento de luta política contra o capitalismo.

A primeira
montagem do grupo foi o
peça “Os Sublevados”, uma comédia que aborda o
tema da dominação
estadunidense sobre os países da América Latina. O
roteiro tem citações
do uruguaio Eduardo Galeano. A peça estreou na chácara
Maria, no
município da Serra, num encontro cultural reunindo várias
bandas e
grupos teatrais. A linguagem e a proposta do grupo causou certo espanto
e impacto nos espectadores, pois se diferenciava das demais montagens
apresentadas na ocasião. A perspectiva do Motim é a de
levar o
espectador à reflexão, difundindo o anarquismo nos
momentos de
intreterimento e lazer. Atuando em escolas, centros
comunitários,
eventos e feiras culturais. O grupo também montou os
espetáculos: “Pinga
Pura” (comédia que trata da questão do alcoolismo,
efeitos e causa
dessa doença), “O Criminoso” (comédia-drama que
aborda a
autogestão e retrata a libertação do
indivíduo das amarras sociais).
Foram também montadas, pelo Lingüiça e outras
pessoas, várias
performances para “chous”, eventos e passeatas.
“O Criminoso” é o trabalho mais atuante do grupo, com apresentações inclusive em outros estados como Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Com ele o Motim foi premiado como melhor texto na 1º Mostra de Teatro de Cariacica-ES (veja o texto aqui), apresentada diversas vezes na Universidade Federal do ES, selecionada para o ENTERPOLA (Encontro de Teatro Popular Latino Americano), em Colatina-ES, 2006 e, principalmente, apresentada em bairros. Apesar de todas as dificuldades, principalemnte de vivências, o Grupo ainda resiste.
Teatro e Anarquismo
O anarquismo do
século IXX tinha grande
tradição com o teatro. O que aconteceu? O que foi
perdido? Como fazer
as pessoas recuperarem o interesse pelo teatro libertário?
O teatro sempre foi instrumento político, ou anti-político. No Brasil, o Padre José de Anchieta usou-o como forma de catequizar os índios. Os movimentos sindicais, comunistas e anarquistas valiam-se do teatro para difundir suas idéias buscando uma tomada de consciência na interação com os espectadores. No tempo da ditadura militar várias montagens de caráter contestador foram censuradas. Muita gente foi presa, torturada, exilada e desapareceu. Os militares só toleravam montagens que não lhes ofereciam qualquer perigo.
O que aconteceu? Hoje, com o fim da ditadura militar, a falsa idéia de democracia permanece e o capitalismo reina absoluto. Muitos autores e atores aderiram ao sistema; são contratados por emissoras, que fazem parte da perpetuação da farsa, vendendo montagens extremamente despolitizadas, besterol comercial, mas muito lucrativas. Perderam o estímulo pela luta e cuidam apenas de suas carreiras ($). Nessa época de globalização, essa é uma atitude quase que generalizado das pessoas: elas perdem o espírito coletivo, tornan-se ambiciosas e indivudualistas.
Para mudar esse quadro e fazer com que as pessoas tenham interesse pelo teatro libertário é preciso ir por etapas. Aqui no estado, mesmo que se apresente de graça, as pessoas não vão assistir. O público não comparece por falta de costume. As pessoas pensam que teatro é coisa de burguês, de intelectual e preferem assistir TV, ir aos “pagodes”, mas nunca ao teatro. Então, a saída que temos é ir onde o povo está, propor oficinas de teatro que tematizem os problemas existentes na comunidade. Exemplo, se no bairro existe mangue, fala-se sobre sua preservação, enfim, fazer com que as montagens ganhem conteúdo contestador. A “fórmula” do Motim é o humor constetador. As pessoas se divertem, tomam gosto pelo teatro à medida que mandamos nossa mensagem libertária. Assim, esperamos levar à platéia um questionamento mais amplo, uma curiosidade em relação ao texto, uma dúvida.
O teatro
convencional mantém uma distância
atores x público, já o teatro libertário tenta
romper com isso, mas
como se faz na prática?
Romper com qualquer coisa que já esteja estabelecida é muito difícil. Tirar a liberdade dos dicionários e pô-la em prática é uma tarefa complexa e desafiadora, assim como acabar com essas distâncias também é. A interatividade é fundamental. Quando o espectador e o personagem se confundem, isto é, interagem, o público se sente parte do processo, fica mais fácil e o interesse é maior. A grande diferença entre o teatro e a TV, é que na TV não há ruptura da “quarta parede”, isto é, o ator não interaje com o público.
O grupo usa muito a interatividade, essa interação faz com que o espectador se sinta fazendo parte da trama. No nosso caso, as montagens são centradas nas pessoas comuns, Sendo assim, há, por parte do público, uma identificação com os personagens.
O Motim sempre abre um debate no fim do espetáculo, o que é bom para nós, pois, ajuda-nos a descobrir até onde conseguimos atingir o público, estendendo, por sua vez, a discussão e aproximando os atores do público. Vejam também a resposta da 2° pergunta.
Teatro Libertário e teatro convencional.
Muitas pessoas que fazem teatro
dizem que é por amor a arte, mas isso é hipocrisia. O que
elas estão
querendo é se inserir na sociedade do espetáculo, querem
mesmo é fama e
dinheiro. Vão topar tudo para serem “carinhas” conhecidas,
irão
participar do esquema de reprodução das injustiças
e da produção de lixo
comercial.
Querer ser reconhecido pelo aquilo que se faz não é pecado (com as restrições acima escrito), mas é incompatível você fazer teatro sarcástico, contestador do próprio teatro convencional e ser reconhecido nesse meio, e crescer nele.
No teatro libertário ocorre a contestação sem medo. Questionamos as estruturas do Estado, os partidos políticos, as igrejas, os sindicatos pelegos. Por isso não dá para fazer um projeto, como a maioria dos grupos teatrais fazem, e enviar a fundos de apoio à cultura, estatal ou privado. Essa é uma grande diferença, além do conteúdo, fazer por amor e acreditando naquilo que se faz, sem se vender.
As maiores dificuldades estão relacionadas aos custos das montagens, tudo sai dos bolsos dos integrantes. Somos boicotados nas leis de incentivo à cultura pois nossa postura é de oposição. Além do mais, os espaços de apresentação estão diminuindo, por isso, nossos futuros projetos passam pelo teatro de rua. Outra dificuldade refere-se aos cursos de aperfeiçoamento. Os oficineiros, daqui, não ensinam nada, só enganam, existe entre essas pessoas o “espírito” de competição. Também existe a falta de tempo para conciliar emprego e família. Mas são mais de 10 anos de resistência, luta social e amor pelo teatro. Continuamos ainda encantando e incomodando muita gente!
Como está a
cena anarquista/punk no Espírito
Santo? Dê-nos uma “geral” de bandas, zines, coletivos e
distribuidoras.
Aqui não difere dos outros lugares, mas nesse momento está havendo um pico. Fora da Grande Vitória há punks anarquistas com bandas, zines, panfletos, fazendo uma boa divulgação. Aqui também está havendo uma efervescência nesse momento. Além dos já tradicionais dias de luta, 1° de maio e 7 de setembro, estamos sempre organizando eventos culturais. Estamos com um grupo de estudos e, nesse, um curso de esperanto. Temos, também, um grande e bom contato com grupos/indivíduos de outros estados como MG e RJ, que sempre passam por aqui, ou nós vamos lá.
As bandas são: Dislexo e Sarcose (Aracruz), Peste Negra (Colatina) e RHC (Cariacica), Kaos Social (Iuna) e várias outras. É bom lembrar que aquelas bandas capixabas famosas, que saem em zines “alternativos”, NADA TEM A VER COM A LUTA ANARQUISTA e com os idéais de eqüidade econômica e diversidade social. Essas próprias bandas se denominam roqueiros, no estado. Não entendemos porque fora daqui eles se denominam HC/Punk/anarquistas.
Zine temos: Causas para Alarme (CPA), Embofia, Akiva Lingvo (esperanto/português) e Kaos. No caso das distribuidoras, cada qual, citado acima, faz suas correrias, o que estamos articulando no momento é uma distro de camisa/zine/botom/sons/petch em conjunto. Em Iuna existe o pessoal que distribuem bastante materiais. Temos também o sítio anarkopagina.org que é um espaço de divulgação na internet
Sabemos que o movimento punk é diferenciado em cada localidade. Quais as características próprias do punk capixaba?
Talvez o teatro, mas em alguns locais também existe teatro. Portanto, achamos que não têm algo próprio.
O que vocês acham que rola de melhor no movimento e o que é mais execrável?
De positivo: a coletividade, o faça-você-mesmo e vontade de mudar.
De
execrável: o movimento apenas com fins musicais,
faça-você-nada.
Como é a situação político-cultural no ES? Como vocês estão inseridos nisso tudo?
O Espírito Santo é
melhor
caracterizado, se pensarmos nos aspectos políticos
institucionais, pela
extremada corrupção. A máfia envolve todos os
setores da sociedade,
desde a polícia (que é extremamente violenta) aos
senhores e senhoras
mais “respeitáveis”. Isso acaba por influenciar, de algum modo,
na
produção e difusão cultural.
Contudo, esse estado é formado por diversas culturas, muitos povos, que vêm, ao longo dos anos, resistindo através de seus cantos, danças, crenças, ritos... . A cultura popular é de extrema significância, visto que, ela por si já é um exemplo de luta contra a cultura de massa. No entanto, os empresários do turismo, da música, da indústria e o Estado tentam, primeiro, corromper as comunidades tradicionais, desenraizando-as; segundo, roubando suas produções culturais, seus ritos, mitos etc..., descontextualizando-os e depois vendendo. Vejam os exemplos da Aracruz Celulose que rouba as terras dos remanescentes quilombolas, no norte do estado, e os casos de bandas como Manimal, Casaca e a Sony music que se utilizam do Congo (uma tradição secular), ignorando suas origens na cultura dos escravos, para vender música-lixo e uma imagem turística que não existe.
Nós coexistimos junto ao popular e a cultura-lixo. Com o primeiro, basiamo-nos pelo respeito e buscamos o necessário diálogo, com a segunda, queremos guerra.
Deixe-nos uma mensagem de paz ou de guerra.
Nossa mensagem não é de paz. Nunca existiu nenhuma sociedade que o conflito fosse abolido, esse é um sonho ingênuo dos comunistas. Entendemos que o conflito é produtor do novo; através da guerra, não a guerra bélica, podemos transformar o social, e seus desdobramentos, e, também, conservar o que de bom já produzimos.
Declare guerra! E a primeira é contra
você mesmo.
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Este texto é parte da entrevista feita por
Renato Maia, de Natal (RN).
As respostas condensam, de certa forma, o pensamento do coletivo (Ricardo “Bissá”, Renê, Lingüiça, Thiago e João). Contendo uma divergência aqui, outra acolá, é assim que as coisas estão caminhando.
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